quinta-feira, 18 de junho de 2009

O punhal

Numa gaveta há um punhal.

Foi forjado em Toledo, em fins do século passado;

Luís Melián Lafinur deu-o a meu pai, que o trouxe do Uruguai;

Evaristo Carriego teve-o uma vez na mão.

Os que o vêem têm de brincar um pouco com ele; percebe-se que há muito buscavam; a mão se apressa em apertar o punho que a espera; a lâmina obediente e poderosa folga com precisão na bainha.

O punhal outra coisa quer.

É mais que uma estrutura feita de metais; os homens o pensaram e o formaram para um fim muito preciso; é, de algum modo, eterno, o punhal que na noite passada matou um homem em Tacuarembó, e os punhais que mataram César. Quer matar, quer derramar brusco sangue.

Numa gaveta da secretária, entre borradores e cartas, interminavelmente sonha o punhal seu singelo sonho de tigre,  e a mão se anima quando o dirige porque o metal se anima, o metal que em cada contato pressente o homicida para quem os homens o criaram.

Às vezes, dá-me pena. Tanta dureza, tanta fé, tanta impassível ou inocente soberba, e os anos passam, inúteis.

 

 

Jorge Luiz Borges

Um comentário:

  1. Os anos passam, inúteis?
    Será mesmo?
    Não seria mais provável que a passagem do tempo desse ao punhal a vida da qual ele necessitava?
    A vida já é do objeto.
    Luís e Evaristo nada mais podem fazer.
    Agora o que fica é processo infindável do porvir.
    Aguente se for capaz!!!

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